
Muitos dos nossos leitores hão-de perguntar quem foi este homem para aqui o invocarmos. Para além de muitas outras coisas, entre as quais professor e reitor do Seminário de Coimbra, o Dr. Manuel Paulo escreveu durante cerca de 30 anos a crónica de “O Amigo do Povo” À Sombra do Castanheiro/ Ao Calor da Fogueira, que nasceu com o jornal e ainda continua a ter inúmeros leitores, hoje escrita por um outro Doutor prestigiado de Coimbra.
Estas crónicas foram publicadas em 5 volumes, após a sua morte, e ainda agora se lêem com proveito para conhecermos e reflectirmos sobre o que foram esses tempos conturbados do chamado PREC – Processo de Revolução em Curso – que se seguiu ao 25 de Abril de 1974. Nesse tempo, alguns deputados encarregavam-se de levar “O Amigo do Povo” para a Assembleia da República, onde era disputado, e o À Sombra do Castanheiro/ Ao Calor da Fogueira era por vezes matéria de aceso debate.
O Dr. Manuel Paulo ajudou – e muito – a iluminar os acontecimentos daquela época com a sua reflexão crítica e a preparar as pessoas para a resistência a uma nova ditadura de sinal contrário que alguns lhe estavam a preparar. Este insigne Mestre e Intelectual não era, como alguns pensavam, um conservador e apoiante do antigo Regime de Salazar e Marcelo Caetano. Antes pelo contrário: sei, e muitos colegas meus também o sabem, que era um firme defensor das novas ideias que já andavam no ar há alguns anos – sobretudo após o Concílio Vaticano II – e não se escusava de criticar publicamente os que no clero alinhavam por uma cada vez maior proximidade entre Igreja e Estado Novo. Um célebre escrito acusatório que um outro professor estava a redigir contra o Reitor do Seminário foi “confiscado” por alunos da minha turma e levado em triunfo ao visado Dr. Manuel Paulo, que nos ficou eternamente agradecido. Na altura nada conseguiu dizer àqueles alunos “trangressores” do respeito pela privacidade alheia, mas os seus olhos e gestos falaram melhor que todas as palavras.
6 comentários:
Deve ter sido um grande Homem mas eu não o conheci.
Ainda não tinha nascido quando ele morreu.
Não conheci o Cónego Dr. Paulo mas já tinha ouvido falar dele. Precisamente pelo "Amigo do Povo".
Calculo que as lutas e dissabores tenham estado no abreviamento da sua vida.
Por vezes descobrimos uma Igreja presente, viva e inserida na realidade do seu tempo... mais vezes do que se imagina.
O Dr. Paulo também foi meu professor. Era de uma inteligência ímpar.
Só não gostava do seu humor negro, quando não acertava com perguntas de cultura geral, como por exemplo esta:
Qual a cidade italiana que mais se parece com um ignorante?
Uma forma chata de nos chamar palermas.
J. Brito
Pela foto se vê que era uma boa pessoa.
Pena que já tenha morrido!...
não privei, nem conheci, "por dentro" o Dr. Paulo, mas a impressão que mantenho, de o ver por perto, é a de uma pessoa muito próxima, de olhar terno, de quem tenho saudades.
Obrigado pelos textos que nos vai apresentando, variados e interessantes.
(Está quase, faltam 2 meses)
FF
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