terça-feira, fevereiro 07, 2006

Críticas

e críticas...


Através de No Adro , tive conhecimento do comentário feito na SIC por Daniel Oliveira sobre o direito à indignação dos Muçulmanos. Ver crítica de O-Espectro.
A minha crítica no post anterior vai contra todos os abusos da liberdade que sejam ofensivos. Contra religiões ou contra pessoas. Venham donde vierem e visem quem visarem.
O respeito é muito lindo e eu gosto.

20 comentários:

Anónimo disse...

Mas pensa nisto: se o mais importante fosse não ofender as pessoas (ou evitar que elas viessem a sentir-se ofendidas), então Jesus teria passado a vida a falar do tempo...

Vítor Mácula disse...

Caro Ver para crer.

A liberdade de expressão tem limites, como por exemplo a incitação à violência física, a calúnia, coisas assim que produzam DIRECTAMENTE práticas anti-dialogais e livres.

Mas a sensibilidade chocada não é um deles. Proibir algo que choque determinada sensibilidade é no limite proibir a expressão de toda e qualquer sensibilidade.

Eu estive ontem a ver o programa “Prós e contras” na televisão, e relativamente à questão em causa, os cartoons, digamos que a história pouco me interessou – como escriba interessam-me mais, digamos assim, os princípios do que os casos. Para além disso, os meandros da informação e desinformação misturados com a opiniatrice e estratégia de interesses generalizada entediam-me a clareza lírica e a ironia. No entanto, tem-me mordido o fazer ou não um post suscitado por tais eventos. Para além de tal, sou um pouco distraído.

Mas se um senhor em nome do espaço político pede desculpa porque um cidadão do país em que ele é político, executou algo (seja uma caricatura ou outra coisa qualquer) dentro da sua liberdade de expressão – há princípios da dialogalidade que estremecem.

Por ora disto chega, trata-se apenas dum intróito para dizer o que neste contexto não posso deixar de dizer: o Dom Manuel Clemente, ao ouvir o António referir-lhe o escamoteamento de informação nos casos de pedofilia nos Estados Unidos, calou-se que nem um rato de laboratório, proferindo apressada e cobardemente uma afirmação genérica da função dos tribunais num Estado de Direito.

Porque ou não se sonegou informação nem se transferiram clérigos ocultando violações sexuais de miúdos ou miúdas, e então diga-se-o inequivocadamente – ou se proclama a total desaprovação com tais procedimentos. Ou, noutro limite, se assume a defesa da pedofilia – antes este abuso porventura absurdo do que a anulação medrosa e merdosa da verdade. Digo eu com tristeza, que até aprecio o trabalho histórico deste senhor sobre o cristianismo.

Se há aqui uma subsumpção do amor e da verdade a uma hierarquia sufocante e sufocada de interesses e estratégias - é algo que não tenho luz nem prática para discernir. Não deixa no entanto a suspeita de inquietar a ironia e a preocupação.

Um abraço em liberdade!

Vítor Mácula disse...

Caro anonymous.

Boa!

Um abraço.

Ver para crer disse...

Vítor:
Deixo aqui alguns excertos dum artigo publicado em «L’Osservatore Romano», sobre este tema:

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 7 de fevereiro de 2006 (ZENIT.org).- Após o assassinato de um sacerdote católico na Turquia, segundo os primeiros indícios no contexto do protesto pela publicação de caricaturas sobre Maomé, o jornal da Santa Sé propõe um exame de consciência sobre a liberdade de expressão e liberdade à ofensa dos sentimentos religiosos.

Esta análise,afirma «L’Osservatore Romano», deveria envolver todos os meios de comunicação e todos os países, citando explicitamente o caso da Espanha, onde um espectáculo teatral ridiculariza o Papa, ameaça os católicos e incita à apostasia, ou onde um programa de televisão explicou «Como cozinhar um crucifixo».

«É lícito, em nome da liberdade de pensamento, ferir o sentimento religioso de quem pertence a uma determinada confissão? Onde começa o direito de expressão e onde começa a ofensa às convicções interiores dos demais?», pergunta Francesco M. Valiante, na edição italiana de 6-7 de fevereiro do jornal.

«Qual é a fronteira entre sátira e escárnio, entre ingénuo e ultraje, entre ironia e blasfémia?», segue perguntando o autor como parte deste exame de consciência.

Trata-se de um debate, reconhece, entre quem «invoca o direito a caricaturar a Deus» e quem considera as caricaturas como «um erro», «uma provocação», «uma difamação», «um acto blasfemo».

«Na questão se mesclam e, em ocasiões, confundem-se níveis diferentes: o jurídico, o cultural e o ético», constata.

«Não há dúvida de que o direito a manifestar o próprio pensamento e o direito a professar livremente uma religião formam parte a pleno título dos direitos humanos fundamentais e irrenunciáveis universalmente reconhecidos» desde há 60 anos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Ao mesmo tempo, acrescenta, «é indubitável que toda a genuína expressão do primeiro destes direitos encontra na plena e integral realização do segundo um limite, por chamá-lo, de algum modo, natural».

«A tão louvada “laicidade” da sociedade moderna não deveria encontrar um dos pontos cardeais de referência precisamente na compreensão e no respeito das convicções do “outro”, ainda que sejam diferentes e antiéticas das próprias?», pergunta o autor do artigo.

«Que progresso social, que meta civil supõe ridicularizar os símbolos da fé de um crente, independentemente da religião à qual pertence?».

«Não estamos falando, como é óbvio, da crítica legítima, da polémica argumentada, da dissensão expressa inclusive de maneira radical - declara o texto. Nenhuma Igreja ou confissão pode pretender privilégios e imunidade».

«Mas pode, e mais, deve exigir respeito quando estão em jogo a verdade e a dignidade de uma experiência como a religiosa, que pertence à dimensão mais íntima e fundamental da pessoa humana», citando depois outras, como a familiar.

Ver para crer disse...

Anónimo:
Parece até que Cristo passou a vida a ofender o próximo.
Que mau exemplo Ele nos deu!!!
Não precisamos de ofender os outros para fazer o bem...

Anónimo disse...

Caro Ver para crer
Insisto: Jesus muitas e muitas vezes provocou, incomodou, desafiou, chocou, desinstalou os seus contemporâneos. Basta lembrar como reagiram aqueles que escutaram o discurso do pão da vida; ou aqueles que o viam a conviver com publicanos e pecadores; ou aqueles que com ele discutiam sobre a observância do sábado ou sobre o poder de perdoar os pecados... Afinal, ele foi condenado com base numa acusação de blasfémia! Pagou um alto preço pela sua liberdade de expressão e de vivência...

Anónimo disse...

Claro que Jesus não falou ou agiu com intenção de ofender ou insultar ninguém. O que o movia era simplesmente o amor à verdade. Mas sabia que haveria quem não o compreendesse: uns, por hipocrisia; muitos, por ignorância. «Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem». Seja como for, isso não o afastou do caminho que quis assumir, nem o levou a ser infiel à mensagem que proclamava ou ao Deus que o enviou.

Pdivulg disse...

Quem quer ser respeitado tem de respeitar!

Vítor Mácula disse...

Caro Ver para Crer, anonymous, Pdivulg, e restantes.

O meu problema não está em se é ou não falta de respeito, mas sim na aplicação jurídica e policial de tal princípio.

Não se pode resolver a multiculturalidade assim, pelo menos numa democracia representativa. Nem é que eu seja um fervoroso defensor desta, mas trata-se daquilo em que estamos aqui no nosso burgo ocidental. E parece-me a mim até, muito mais perigoso tal definição formal e jurídica do respeito no que cabe à expressão (desde que esta não seja uma directa incitação ou calúnia) numa democracia representativa do que numa ditadura. Porque nesta o ponto de vista dominante é fixo, e pelo menos ficam fixas as “sensibilidades” a respeitar.
Mas numa democracia representativa que pretende assumir a multiculturalidade, isto torna-se um torniquete a todas as possibilidades de expressão. Quero dizer, não chocar todas as sensibilidades, religiosas ou outras… bem, calamo-nos todos, não?...

O princípio da dialogalidade é precisamente a aceitação da diferença do outro, e da expressão de si. E há evidentemente coisas a renegar em nome disto, e uma delas é a violência física. Isto dá pano para mangas, e estou a ver que dará para um post, quando passar um pouco a actualidade e sobretudo a minha irritação – e por ambas, calo-me quanto aos princípios.

Quanto aos resultados… O índex de tal via de “respeito” será muito maior que o conhecido índex romano…

Terei que passar a ler às escondidas, sempre que quiser ler algo diferente da Condessa de Ségur?...

E já agora, poderá o Dom Manuel Clemente pôr-me em tribunal por dizer-lhe o que penso? ;)

Isto não significa evidentemente que não hajam estratégias e interesses políticos, económicos e por aí fora no caso concreto das caricaturas... E isso seria outra conversa, com alguém bem mais informado destas coisas que eu... Conversa que só poderemos ter, aliás, desrespeitando certas sensibilidades.

E é evidente que Jesus desrespeitou certas sensibilidades. Caramba, não se pode chamar raça de víboras e sepulcros caiados a esses religiosos fariseus, mas que falta de respeito inaceitável!...

Abraço dialogal.

Anónimo disse...

Ó vitor mácula, tu lês a Condessa de Ségur?! Isso é grave... :o)

Vítor Mácula disse...

Oh anonymous, porra, agora devido à tua sensibilidade lá vou ter que ler a Condessa às escondidas também ;)

Zeca disse...

Partilho uma pequena narrativa de Tony de Mello. Pode ter interesse...
«Quando o grupo de peregrinos se queixou de que o Mestre ofendera os seus sentimentos religiosos, ele explicou que o que na verdade ofendera tinha sido o ego deles. E contou-lhes o caso do bispo que declarou ser a Senhora do Santuário a padroeira da diocese.
Então os devotos da Senhora do Templo que, sem sucesso, tinham feito campanha pela sua candidata, fizeram uma procissão de protesto e decretaram um dia de jejum em desagravo da Senhora do Templo.
- A ofensa, afinal, foi à Senhora ou aos sentimentos religiosos das pessoas? - perguntou o Mestre».

Pdivulg disse...

Vejam só agora abriu-se um concurso de caricaturas anti-semitas... Enfim...

Caros Amigos disse...

Vítor:

Creio que todos nós deploramos o que aconteceu com padres dos Estados Unidos e não só. O Papa pediu desculpa, as dioceses deram indemnizações, os tribunais estão a julgaram ou julgaram já grande parte dos prevaricadores.
Não vejo é o que tem isso com o assunto em causa: os cartoonssobre o Profeta Maomé.
Estás de acordo com os seus autores? Achas que exerceram bem o seu papel de denunciarem o que se pasa com o Islão?
A liberdade de expressão deve ter ou não limites? E quais?
Por mim, deixo já a minha opinião:
Os «cartoonistas» e o jornal não mediram as consequências: a moral do Islão é pagar as ofensas com a violência física e eles tinham obrigação de o saber.
O povo muçulmano tem grandes razões de queixa contra o ocidente e não perdoa, como os cristãos devem fazer.
Deitar brasas na fogueira é criminoso.
Tenho dito!

Vítor Mácula disse...

Caros Caríssimos.

Desculpas, papais ou outras, não elidem responsabilidade legal. Estar arrependido sinceramente ou não, não anula a exigência de responder perante a lei, assim como de aferir publicamente como tal foi possível e proceder a reestruturações e etc. Houve ou não sonegamento de informações e deslocações de pedófilos de diocese em diocese?...

Seja como for, o que estava em expressão no meu comentário foi a falta de frontalidade de D. Manuel Clemente, e que espelha a do Magistério. Quanto a certo fundamentalismo, para o caso islâmico, também ainda não vi o Magistério condenar inequivocadamente a fatwa contra Salman Rushdie, portanto é melhor nem ir por aí… Quando nos coibimos na luta contra a violência, apenas porque aparentemente são “colegas de religião” ou outro qualquer mais obscuro interesse geo-estratégico… Balelas!... E o que estava em expressão mais subtil no meu comentário era precisamente o poder exprimir-me ferindo a sensibilidade alheia.

Quanto ao acordo ou não acordo que eu possa ter, não tem nada que ver com o assunto. Não pode é esse meu acordo ou desacordo ter peso jurídico ou político – e é essa a questão. Não estamos no domínio da moral privada, mas da moral pública. Eu não posso impor ao corpo colectivo, jurídica e policialmente, as minhas escolhas morais.

Quanto ao fundamentalismo de talião, ele não é estritamente islâmico. A sua frase “a moral do Islão é pagar as ofensas com a violência física”, para além de denotar ignorância acerca do assunto, é um insulto ao Islão, tanto ou mais do que as caricaturas. Não sei se feri a sua sensibilidade ;) É o custo da verdade e da frontalidade.

É a resposta de violência que deve ser condenada, e não pedir desculpa a alguém que, após ter sido verbal ou imageticamente insultado agrida fisicamente quem o insultou. O que não significa que não se compreenda, histórica e politicamente, tais acontecimentos. Não se pode – ou eu não posso – é legitimá-los

A liberdade de expressão tem limites: a difamação ou calúnia (mentiras) e a incitação directa à violência. A injúria não é um dos limites – até porque como ela se mede pela sensibilidade do injuriado, e não pelos termos da expressão, no limite tudo pode ser injurioso para um qualquer e… teremos de andar todos calados.

Um abraço.

Caros Amigos disse...

«A liberdade de expressão tem limites: a difamação ou calúnia (mentiras) e a incitação directa à violência».
Estou de acordo. O pior é quando a injúria ataca uma pessoa ou uma comunidade com ofensas graves como o caso dos cartoons que não fere apenas os muçulmanos violentos mas também os pacíficos! E creio que estes serão a maioria.
Claro que isso não justifica a violência , dizemos nós os cristãos. Mas a quem recorrer para haver justiça?!
Os cartoons referidos não serão demasiado violentos contra o sagrado do islão?!

Vítor Mácula disse...

Caros Caríssimos.

Tenho impressão que ainda não percebeu o meu problema, e que tem como fundo o perigo de legislar e policiar tais matérias, dada a determinação da injúria depender do injuriado.

Poder ofender faz parte da justiça, isto é, do direito a dizer-se, caricaturalmente ou não, o que se pensa e ressente, ou até o que der na bolha. Que ninguém me ofenda, é uma justiça de ditadura. Eu sou ofendido todos os dias (enfim…) por expressões diversas que por aí pululam. Não me passa pela cabeça calá-las (enfim…)

Trata-se de viver em liberdade e na diferença (religiosas e outras), e esse é o fundo da questão, a multiculturalidade em que vivemos. Anular qualquer possibilidade de diferendo ou polémica é neutralizar as expressões da diversidade, isto é, a própria multiculturalidade. Não me parece ser um bom caminho.

Como disse, em termos formais e de princípios, parece-me que só conduziria à hipocrisia e silenciamento diversos.

Teríamos que calar já e de imediato, e só para dar alguns exemplos, a música dos Sex Pistols e da Peaches, os filmes dos Monthy Python, os romances do Houellebecq, etc etc etc. E o resto vinha já a seguir, dada a multiplicidade de sensibilidades (religiosas e outras) que convivem no nosso plural espaço.

É evidente que nada disto tem que ver com o caso das caricaturas, que é um embróglio politico-financeiro e militar – mas foi posta em discurso a questão de moral e princípios, para além de que se fala em legislação e… não sei se leu o comunicado woodyallenesco do nosso governo acerca do assunto.

Isto já se tornou uma tragi-comédia – cómico devido ao disparate, trágico devido a ser real e não apenas uma "forma de expressão".

Também não sei se todos os cristãos pensam que não justifica a violência... Também "internamente" há diversidade...

Enfim, a vida é larga e complexa...

Abraço.

Anónimo disse...

Vale a pena ler: http://dn.sapo.pt/2006/02/09/opiniao/a_estranha_morte_ocidente.html

Ver para crer disse...

É neste conflito de interesses e sentimentos que é fundamental que entre o amor. Se não for ele não há «direitos» que nos salvem dum banho de sangue. Como diz Bento XVI, «o amor será sempre necessário mesmo na sociedade mais justa».
Creio que o amor implica o respeito pelos valores daqueles que pensam diferente de nós para que também eles nos respeitem. Ele implica um diálogo frontal para que aquilo que nos divide não germine em ódios e separações ainda mais acentuadas.
Um abraço para todos os que colaboraram neste debate e bom fim de semana.

Sonhadora disse...

Em relação ao que foi dito concordo um pouco com todos, e com nenhum em 100%.
Só pergunto: o que é que se ganha com este clima de "Guerra Santa" de parte a parte?
Os cristãos não deveriam preocupar-se, em primeiro lugar, com a Paz? Não foi isso que Jesus nos pediu, "Amai-vos uns aos outros"? Então para quê acender o rastilho?
A nossa liberdade acaba quando começa a interferir com a liberdade dos outros. E se os ocidentais têm liberdade de expressão, os muçulmanos têm a liberdade de se sentir ofendidos. Só não têm a liberdade de recorrer à violência...

Ver para Crer: tens um desafio no meu blog. Só para descontrair...